Entre os dias 26 de fevereiro e 20 de abril de 2026, a maranhense Pequena Companhia de Teatro ocupa o Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo, com quatro espetáculos, uma oficina e uma exposição, em comemoração aos seus 20 anos de trajetória. As apresentações dos dias 7 e 21 de março, e 4 e 18 de abril contam com bate-papos após as sessões. Todas as atividades são gratuitas.
As peças têm dramaturgia de Marcelo Flecha e são livremente inspiradas em obras como Carta ao Pai (Franz Kafka), Livro do desassossego (Fernando Pessoa), Un señor muy viejo con unas alas enormes (Gabriel García Márquez) e A outra morte (Jorge Luís Borges), livros de escritores expoentes da literatura mundial.
A Pequena Companhia de Teatro, criada em 2005 e composta pelos atores Cláudio Marconcine e Jorge Choairy, pelo encenador Marcelo Flecha e pela produtora Katia Lopes, é referência teatral maranhense das últimas décadas. Premiada, já conquistou quatro Prêmios FUNARTE de Teatro Myriam Muniz e participou dos principais projetos de circulação nacional – Palco Giratório, Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, SESC Amazônia das Artes, SESI Viagem Teatral e Ocupação dos Centros Culturais BNB.
Foi selecionada para 70 festivais e mostras nacionais e já circulou por 72 cidades de 25 estados do país. “Sendo um grupo de teatro de pesquisa de ações continuadas, a circulação pelo Brasil é o nosso alicerce de sustentação, a teia que enlaça nossas ações com todas as regiões do país, e com todo o teatro de grupo feito por aqui”, explica Flecha.
O grupo desenvolveu quatro sistemas para criar suas montagens: “Quadro de Antagônicos”, instrumento de treinamento para o ator, de onde saem os personagens, fugindo de uma construção naturalista convencional; a “Transposição de Gêneros”, instrumento de confecção de dramaturgia; o “Teatro Polidramático”, conceito de concepção de cena; e “Artesania iluminocenográfica”, sobre iluminação.
“O nosso processo de criação sempre começa com um debate sobre o tema que a gente quer levar à cena. A partir daí, iniciamos uma pesquisa em textos dramatúrgicos e literários, o que chamamos de transposição de gênero, tema, inclusive, de oficinas que ministramos em várias cidades brasileiras”, conta o dramaturgo.
Espetáculos dentro da Ocupação
O espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, contemplado com dois Prêmios FUNARTE de Teatro Myriam Muniz (2012/2013), abre a programação a partir de 26 de fevereiro, em cartaz até 9 de março. Inspirado na obra Un señor muy viejo con unas alas enormes, de Gabriel García Márquez, a narrativa da peça se desenvolve a partir de um ser alado, interpretado por Jorge Choairy, que cai no quintal de um ser humano, personagem de Cláudio Marconcine.
O humano é um catador de lixo que tenta sobreviver à miséria que assola sua família e, de repente, vê sua rotina mudar com a queda desse ser estranho em seu quintal. O espanto inicial dá lugar à necessidade de identificá-lo. Seria um anjo? Um frango? Um delírio provocado pela fome? É nessa teia que o espectador é convidado a se equilibrar, enquanto os dois seres se digladiam em um intenso confronto dialético. O exílio forçado de um, e a miséria do outro, pontuam a trama, que apresenta um cenário pós-apocalíptico permeado de desesperança. Um ser alado e um ser humano, no abismo de suas percepções, preconceitos, medos e dúvidas.
Em março, de 12 a 23, o público é convidado a assistir Pai & Filho, inspirado na obra Carta ao Pai, de Franz Kafka, e que, com linguagem crua e visceral, discute as relações de poder, originadas na estrutura familiar e disseminadas na constituição sociocultural contemporânea. Na peça, um homem aprisionado e oprimido pelo poder do pai, procura enfrentá-lo, mas seu discurso não consegue quebrar a hierarquia familiar, impedindo que um diálogo aberto se estabeleça. A encenação disponibiliza um espaço para a discussão sobre o conflito de gerações e a relação de dependência utilizada no seio familiar como instrumento de poder. No palco, Jorge Choairy dá vida ao Filho e Cláudio Marconcine ao Pai.
Em seguida, a Companhia apresenta Ensaio sobre a memória, de 26 de março a 6 de abril. Um escritor e sua assistente iniciam uma pesquisa, para a criação de um novo conto, sobre um senhor que se engajou contra um regime militar latino-americano e foi torturado. Por não resistir à tortura entregou seus pares, e passou a vida esperando uma segunda chance para remediar essa fraqueza. Nesse contexto, a peça mergulha em um labirinto de narrativas, com conflitos de versões, memórias ficcionais e suspeição histórica. O elenco é formado por Cláudio Marconcine (Escritor), Dênia Correia (Mulher), Lauande Aires (Pedro Damián) e Katia Lopes (Espectro). O espetáculo foi livremente inspirado no conto A outra morte, de Jorge Luís Borges.
O último espetáculo apresentado na temporada acontece entre 9 e 20 de abril: Desassossego, baseado no Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. A obra é um convite para o espectador mergulhar em uma experiência cênica sensorial, emotiva, divertida e provocadora. Os atores Luciana Duarte e Jeyzon Leonardo são personagens de si mesmos em uma comédia constrangedora para sorrisos amarelos, dirigida por Marcelo Flecha. Na busca pela cena perfeita, tentando construir um novo espetáculo, eles convidam a plateia a invadir um processo de montagem e ver, de maneira escancarada, todos os desassossegos, descompassos e descaminhos do mundo teatral, se deparando com a metáfora perfeita do que é a vida humana cotidiana, no seu aspecto mais puro.
Exposição e oficina
Desde o início da Ocupação, no dia 26 de fevereiro, os visitantes podem conhecer um pouco mais sobre a trajetória, pesquisa e desenvolvimento teatral desses 20 anos de trabalho do grupo, por meio da Pequena Mostra de Teatro, em cartaz no Foyer do Teatro do CCBB São Paulo. A exposição fica aberta até o final da temporada, no dia 20 de abril.
Álbuns de fotos, diários, iluminações, ilustrações, catálogos, partes de cenografias, figurinos de espetáculos e minibiblioteca compõem o espaço, ajudando a contar a história da Companhia, que desenvolveu tecnologias para reduzir os impactos ambientais, otimizar os recursos financeiros, construir uma pesquisa de linguagem focada na dramaturgia do ator e sustentar seu compromisso político de operar o teatro como um potente instrumento de reflexão para além do entretenimento.
Nos dias 7 e 21 de março, e 4 de abril, iluminadores, cenógrafos, alunos de teatro, artistas de teatro, encenadores e pesquisadores com interesse em dramaturgia da luz a partir de iluminações não convencionais são convidados a participar da oficina “Artesania iluminocenográfica: desenvolvendo tecnologia a partir da obsolescência”, com duração total de 09 horas.
São 30 vagas e as inscrições são feitas via formulário (https://forms.gle/CU8n36BbqScsoJ837). A oficina faz parte do resultado e compartilhamento da pesquisa realizada pelo iluminador Marcelo Flecha durante as últimas duas décadas como uma ação política, na busca por democratizar um pensamento sobre a iluminação cênica para além de espaços que abriguem equipamentos de luz convencionais, e como esse pensar pode operar produtivamente uma instrumentalização da luz no teatro.
Os encontros propõem o estudo de elementos iluminocenográficos a partir de resíduos descartáveis, fontes luminosas do cotidiano e equipamentos de luz obsoletos, provocando no participante a construção de um pensar político, estético e narrativo a partir da luz.
SERVIÇO
Ocupação Maranhense: 20 Anos da Pequena Companhia de Teatro
De 26 de fevereiro a 20 de abril de 2026
Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
R. Álvares Penteado, 112, Centro Histórico de São Paulo, SP
Retirada de ingressos: Grátis na bilheteria do CCBB SP e pelo bb.com.br/cultura (1h antes do espetáculo)
No Teatro
Velhos caem do céu como canivetes,livremente inspirado no conto Um señor muy viejo com unas alas enormes, de Gabriel García Márquez
Data: 26/02 a 09/03/2026
Horário: Quinta, sexta e segunda, às 19h | sábado e domingo, às 18h
Bate-papo após sessão: 07/03 | sábado
Sessão Inclusiva (intérprete de libras): 01/03 | domingo
Classificação etária: 14 anos | Gênero: Drama | Duração: 60 minutos
Ficha técnica:
